quinta-feira, novembro 23, 2006

# CLXV - António Gedeão, o professor!


(Pelo seu punho...)

Nas suas múltiplas facetas, como todos nós afinal, António Gedeão marcou muita gente. Neste centenário do seu nascimento (Rómulo de Carvalho) alguns lembram o professor, outros o cientista e autor de manuais, outros ainda a sua poesia... Será que nos dava alento, a nós professores, quando escreveu:

Eu sei porque é que morro / Eles é que não sabem porque matam!

(In Poema do autocarro, do livro Máquina de fogo, 1961)

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Este é um dos mais bonitos poemas, na língua de Gedeão. Pedra filosofal, musicada e cantada por Manuel Freire:


Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida

tão concreta e definida / como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta / em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso, / em serenos sobressaltos

como estes pinheiros altos / que em verde e ouro se agitam

como estas aves que gritam / em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho / é vinho, é espuma. é fermento,

bichinho alacre e sedento. / de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo / num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho / é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel. / arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral, / contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia, / que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante, / rosa dos ventos,

Infante, caravela quinhentista, / que é Cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim, / florete de espadachim,

bastidor, passo de dança. / Colombina e Arlequim,

passarola voadora, / para-raios, locomotiva,

barco de proa festiva, / alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar, / ultra som televisão

desembarque em foguetão / na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida.

Que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança

como bola colorida / entre a mãos de uma criança.






4 comentários:

aldina disse...

Que bom que é ser português e pertencer à espécie Humana... quando sabemos de pessoas assim!

Até sempre.

IC disse...

Tranmissão de pensamento? Ná... acho que nem é precisa quando se têm na mente números comuns para as "apostas" ;)
***

Anónimo disse...

Na estante da minha sala António Gedeão ocupa um lugar especial, porque o livro que tenho é uma edição especial,que foi comprada a muito custo por puro encanto e porque é um poeta de excepção.
Como acontece sempre que passo por aqui, senti, mais uma vez, que és realmente meu irmão. Ao ler-te reconheço-me! Será só dos genes? Bjs

Teresa Lopes disse...

Aprendi com Gedeão que as palavras podem ser duras como rochas e repletas de ternura, ao mesmo tempo. No fundo, as palavras são como diamantes, o mais puro cristal.
Também eu lhe dediquei uma singela homenagem. E, na Feira do Livro da Escola, ele terá um cantinho só para ele.
Um abraço.