domingo, junho 22, 2008

# CCL - Mais um 24 de Junho

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[Espectáculo pirotécnico - noite de 21 de Junho de 2008]





Na RTP, num dos programas de José Hermano Saraiva (JHS), falou-se do S. João de Sobrado. Com algumas incorrecções, perdoadas por quem se habituou a gostar deste simpático colaborador salazarista que conseguiu regenerar a sua imagem perante toda uma nação e por todos aqueles que sentem orgulho de ver as tradições da sua terra (Sobrado - Valongo) em destaque.
Fica aqui um extracto do guião do que JHS gesticulou/disse nesse programa:


"Outra freguesia é a de Sobrado. Sobrado, quer dizer uma casa que tem além do rés-do- chão um primeiro andar, sobre a casa há outra casa, sobrado, e era única que teria uma casa com primeiro andar, visto que só esta é que se chamava sobrado. O mais importante no Sobrado pode ver-se aqui na Igreja que está na nossa frente, é uma linda igreja, tem um altar-mor magnífico, tem excelentes imagens, mas o mais importante de tudo é aquela imagem aparentemente insignificante. São dois palmitos, e bem, pois bem todos os anos, no dia de S. João, vêm aqui uns marotos, roubam a imagem e todo o dia de S. João há uma guerra, há uma guerra entre os querem que o S. João não saia daqui, os que querem levar para curar a filha do Rei Mouro. Esse espectáculo é um dos mais espantosos que se podem ver em Portugal. Eu vou-lhes falar nele.


Na Vila do Sobrado realiza-se todos os anos, no dia de S. João, como sabem é o 24 de Junho, uma manifestação colectiva, surpreendente, única em Portugal, fala-se pouco nela, não percebo porquê, é uma coisa duma intensidade, duma vibração, só tem semelhança no Carnaval Carioca, é uma coisa em que toda a Vila dança, toda a vila estremece, e luta, e combate, é uma coisa espantosa, espantosa. Sei que liga-se com lendas locais. Dizem que quando os mouros estavam lá nas serras, havia um santo cá no vale, o santo claro, era o S. João, era o S. João, e o Rei, o Rei mouro tinha uma filha muito doente, mas sabia que o S.João fazia milagres.

Então mandou cá baixo buscar a estátua do S. João, que lhe curou a filha e depois ele não restituiu a estátua. Então os cá de baixo, que são realmente os bugios, foram lá cima para trazer a estátua para baixo, isso deu uma luta dos diabos. Bugios porquê? Bom, porque eles iam mascarados, vão todos mascarados. São dois grupos, os bugios que são aqueles, são a grande maioria, são centenas, cada um fardado, arranjado à sua maneira, enfim, lá vai, um vestido de vermelho, que é realmente o velho bugio, é o que manda neles todos, mas são centenas. Os mourisqueiros são muito menos, são algumas dezenas, algumas dezenas. São estes que estão daqui, vêm-nos aqui, este tem dragonas, dragonas, é portanto o Reimoeiro, Reimoeiro uma palavra só, estes são umas dezenas, aqueles são a maioria.

E como vêm nestes arranjos ainda há uma sugestão das fardas das invasões francesas, ficaram na memória popular, portanto isto mistura histórias de mouros,com histórias do cristianismo, com histórias das invasões francesas, com histórias do culto de S. João, está lá a imagem do S. João na igreja, e tem uma força e uma violência, já previno que quem não tiver coragem não vá lá, porque ainda mantém um certo grau de brutalidade. Atiram com lama e até às vezes com bosta de vaca à cara das pessoas, porque um tipo ao entrar tem logo que dizer se é bugio ou mourisqueiro, ou toma um lado ou outro, depois aquilo há combate, há, começa com um grande desfile inicial com centenas e centenas de figuras, depois lutam, depois há palanques, depois há conquistas.
Acaba tudo quando, realmente os bugios, têm uma ideia muito inteligente vão arranjar um monstro, que é uma serpe, uma serpe e aqui há uma influência do dragão chinês, e vêm lá com a serpe, é claro que os mourisqueiros têm muito medo daquele monstro, fogem todos, e aquilo acaba tudo em bem, depois uma grande festa em que todos se abraçam e confraternizam e há uma comesaina. É um dos fenómenos mais extraordinários, mais densos de significação e menos conhecidos do folclore tradicional português.


Aqui fica o aviso, quem quiser ver uma coisa única em Portugal no dia de S. João vá ao Sobrado. "

[Videofono - IMAGEM, SOM E EDIÇÃO, LDA]



Para os mais aficcionados, um cheirinho duma marcha que todos os amantes desta festa conhecem:



4 comentários:

Raquel Alves disse...

Viva...ainda existo!E nesta época de S. João,tinha forçosamente que passar por aqui...Não sendo Sobradense fui "apanhada" por este S. João tão colorido, teatral e especial.É uma festividade muito bonita que conheço há cerca de um ano.
No dia 24 lá estarei!!!

deep disse...

Bem, no meio da confusão é que eu não me atrevia a meter-me! Lá que é uma tradição invulgar, isso é!

Espero que te tenhas divertido.

Bom fim-de-semana. :)

Rosa dos Ventos disse...

Tenho pena de não ter "ouvisto" o falar gesticulado desse excelente comunicador, embora abuse um pouco de planos com a sua pessoa...
No meu bairro também se festeja o S. João com festa rija!

Abraço

TsiWari disse...

raquel : finalmente! ***

deep : é uma das festas mais "recomendáveis" de todas as que conheço! A diversão, o espanto e a emoção são garantidos... ***

rosa dos ventos : melhor que o "contador de histórias" é a história/estória em si! ***