segunda-feira, abril 09, 2007

# CXCIV - E por falar em Nordeste


(A terra seca impede a labuta quotidiana, Porto, Abril de 2007)



Referi no post anterior o tema Asa Branca. Este hino do Pernambuco foi cantado e interpretado por dezenas de artistas (em Portugal, assim de repente, lembro-me duma versão da Isabel Silvestre e outra do Rao Kyao). O instrumental é lindíssimo e a letra fala da seca na região do Nordeste brasileiro que obriga toda a gente a abandonar a sua terra, inclusivamente um pássaro chamado Asa Branca.

A Volta da Asa Branca (1950) – nesta toada-baião, Zedantas retrata a alegria do sertanejo ao ver a Asa branca voltar ao Sertão e, com ela, chegam as primeiras chuvas, a esperança do sertanejo. Luiz Gonzaga, em entrevista ao Globo Repórter – TV Globo (1985), afirma que “A Asa branca é o símbolo da dor e do sofrimento na seca. Quando a seca queima o Sertão, até a Asa branca vai embora”. Zedantas, ao organizar uma seleção de seus sucessos com Luiz Gonzaga, em uma nota explicativa para o primeiro LP em 1959, intitulado Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zedantas, diz: “A Asa branca, imitando o sertanejo, migra para outras terras e volta ao Sertão nas primeiras chuvas. Tão singular o mimetismo de vida, já legou ao retirante o epíteto de ‘Asa branca’”.(DANTAS, 1959).

Fica-me sempre a imagem das mulheres sérias, dos homens trabalhadores...

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Asa branca - [Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira]


Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu por que tamanha judiação (2x)


Que braseiro, que fornalha, nenhum pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão (2x)


Inté mesmo a Asa Branca bateu asas do sertão
Entonce eu disse: adeus Rosinha, guarda contigo meu coração (2x)


Hoje longe muitas léguas nessa triste solidão
Espero a chuva cair de novo pra eu voltar pro meu sertão (2x)

Quando o verde dos teus olhos se espaiá na plantação
Eu te asseguro, não chores não, viu
Que eu voltarei, viu, meu coração (2x)

A volta da asa branca - [Zé Dantas - Luiz Gonzaga]

Já faz três noites / Que pro Norte relampeia
A Asa Branca ouvindo / O ronco do trovão
Já bateu asas e / Voltou pro meu sertão
Ai ai eu vou-me embora / Vou cuidar da plantação

A seca fez eu desertar / Da minha terra
Mas felizmente Deus / Agora se "alembrou"
De mandar chuva / Pra esse sertão sofredor
Sertão das "muié séria" / Dos "home trabaiadô"

Rios correndo / As cachoeiras tão zoando
Terra molhada, / Mato verde que riqueza
E a Asa Branca / Tarde canta que beleza
Ai ai o povo alegre / Mais alegre que a natureza

Sentindo a chuva / Me "arrecordo" de Rosinha
A linda flor do meu / Sertão pernambucano
E se a safra não / Atrapalhar meus planos
Que que há seu vigário / Vou casar no fim do ano

Das versões que conheço, gosto particularmente desta da Elba Ramalho com o fabuloso Zé Ramalho (do Admirável Gado Novo!):


quarta-feira, abril 04, 2007

# CXCIII - Divas - Dezanove - Elba Ramalho


(Elba Ramalho, em concerto)


Uma das minhas divas é a, eternamente menina da paraíba e uma simpatia única, Elba Ramalho.
De uma versatilidade invejável, eu acho-a no seu melhor quando aborda as composições genuinamente populares, como as do seu mestre Luiz Gonzaga.
[Mas convence, e muito bem, em todos os outros estilos. Imparável no Bêradero, do Chico César, quando canta "E a cigana analfabeta / lendo a mão de Paulo Freire", tenho que confessar!]
Hoje deixo uma sua versão do "Assum Preto" - o drama de não ver que permite a aproximação ao belo (para cantar melhor) , por contraposição ao que o autor descreve em Asa Branca - o ver é sofrer, dada a desolação a que foi abandonado o sertão.

Assum Preto
Composição: Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira


Tudo em vorta é só beleza
Céu de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)

Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió (bis)

Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)

Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus.




terça-feira, março 27, 2007

# CXCII - Resgatando memórias


(So long - Março'2007)


Eram os anos 80. Com as músicas especiais dessa época...as tais que me fazem, muitas vezes, parar e pensar..."conheço esta"...e começar a trauteá-la, pouco depois.
Dos Fisher-Z gosto de (re)ouvir, vezes sem conta, este "So long":

So Long

When I read your letter I couldn't believe that you'd gone.
I dialled your number but no one answered the phone.
I asked your friends to tell me if they knew where you were,
they said they thought that you were ill.

I hired a detective to try and find out where you are.
He managed to trace you, he said you were living in France.
A watchman saw you climb into someone else's car and drive off
laughing in the night.

Why didn't you tell me? Not leave me this way.
You could have told me and not waited for so long.

I've tried to forget you but I find myself walking the street.
I went to the doctor and he gave me something to sleep.
I've sentyou telegrams but you haven't answered one.
Your mother told me I best leave you well alone.

I hope you're satisfied now you've done this thing to me.
I hope you're pleased with what you've done.

Why didn't you tell me? Not leave me this way.
Oh you could have toldme and not waited for so long.

For so long I never realized just exactly who you were.
I never realized just exactly.
I've never realized the girl I had before.
I hope you're satisfied you won't hear from me again.
I hope you're pleased with what you've done.

Why didn't you tell me? Not leave me this way.
Oh you should have told me and not waited for so long.





sábado, março 10, 2007

# CXCI - As coisas simples


(Algures da net)

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A vida ensina-nos, por vezes duma maneira cruel que há gentinha que nada vale.
Que nos sorriem, por hipocrisia.
Que se movem num nível tão baixo que nos passa despercebido, a nós habituados que estamos a olhar em frente e para cima.
E, hoje, fica apenas uma canção... ...Embora triste, como triste é essa gentalha, é muito bonita.
--<@
Alberto Pla, "Yo quiero que tu sufras "

Yo quiero que tu sufras
lo que yo sufro
y aprenderé a rezar para lograrlo
yo quiero que te sientas
tan inútil
como un vaso sin whisky
entre las manos
y que sientas en tu pecho el corazón
como si fuera de otro
y te doliera.

yo te deseo la muerte
donde tu estés
y aprenderé a rezar para lograrlo

yo quiero que tu sufras
lo que yo sufro
y aprenderé a rezar para lograrlo

Yo quiero que te asomes
a cada hora como un preso
asomado por tu ventana
y que te sean las piedras de la calle
el único paisaje de tus ojos.

yo te deseo la muerte
donde tu estés
por dios que
y aprenderé a rezar para lograrlo





terça-feira, março 06, 2007

# CXC - E uma vontade de ir...


(Homem do Leme, Porto, Julho de 2006)



Um dos hinos da música portuguesa.
Um símbolo de resiliência.
Uma fonte de inspiração.
Um grito mudo.
A vida a fugir
E, cá dentro,
Uma vontade de ir...

---<@

Xutos e Pontapés - O Homem do Leme

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma onda / mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo / impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade,
rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, / vai o homem do leme...
E uma vontade de rir / nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, / correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma onda / mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo / impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade,
rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, / vai o homem do leme...
E uma vontade de rir / nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, / correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...


No fundo horizonte
sopra o murmúrio
para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...

E mais que uma onda / mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo / impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade,
rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, / vai o homem do leme...
E uma vontade de rir / nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, / correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...